Movimento

Anatomia de uma Ferida

Sarhai
AUtor
Sarhai
/ foto/ilustração:
Sarhai

Somos ferida aberta, supuração-sanação constante. Nunca fomos corpo são. Demos o primeiro grito ainda antes de nascer, contracorrente, e até hoje esse choro não cessou. Viemos ao mundo numa colagem de nortes, suis, lestes e oestes pegados com pensos rápidos de pólvora. Esvoaçavam pombas imaginárias quando anunciaram o nosso nome. Pelo furor popular ao hastear da bandeira, dizem uns; em debandada pelas bombas no horizonte, garantem outros. Os anos passaram. Experimentámos mezinhas, feitiços e transfusões. Mudámos de pele e máscaras. Apaziguámos dores, provocámos outras, entrámos em comas profundos e acordámos mil vezes de golpe antes de novos desmaios. A ferida camuflou-se em diferentes cores e formas. Mas nunca fechou. Cansada de curas-veneno, já só finge que não arde.

Ver obra completa na Ngapa 04.

mais artigos