A construção do Estado-nação angolano apresenta, desde os seus primórdios, a particularidade de ter atravessado – ou, mais rigorosamente, de ter experimentado – praticamente todas as formas de violência política, social e simbólica. Desde o momento em que os angolanos colonizados iniciaram, em meados do século XX, a trajectória que culminaria na independência deste vasto território – cuja configuração geográfica actual resulta do processo de expansão europeia iniciado no século XV e das rivalidades dele decorrentes, das quais a Conferência de Berlim (1884 - 1885) constituiu apenas um episódio estruturante – instaurou-se um processo global de disputas hegemónicas. A tradução prática desse processo foi um encadeamento contínuo de violências de múltiplas naturezas, variáveis conforme as etapas históricas e frequentemente combinadas entre si.
Convém recordar que a fonte inicial desse ciclo de violências reside na chegada, no século XV, das expedições europeias. Estas não se moviam por qualquer “missão civilizadora”, como proclamaram gerações de colonizadores, mas pela necessidade imposta pela reestruturação da economia europeia no pós-Cruzadas e pelas disputas em torno do Mediterrâneo. O Oriente voltara a ocupar o centro do sistema mundial – posição que detivera durante séculos desde a revolução económica pós-neolítica – e da qual vastas regiões africanas haviam sido protagonistas, seja através do comércio transariano, seja por meio das amplas redes mercantis que fizeram da costa oriental e do Corno de África um eixo civilizacional em contacto permanente com a Ásia. Foi esse dinamismo que atraiu as expedições europeias, marcadas pela brutalidade medieval herdada das Cruzadas.
*Historiador, Ensaista, Professor Catedrático de História Africana na Howard University, Washington DC, Estados Unidos
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