O dia começava antes das sete no Prenda. O cheiro de café coado se misturava ao barulho dos candongueiros, e o pregão das zungueiras ecoava pelas esquinas: “Banana, banana, fresquinha, filha!”
Nádia saía de casa com a pressa de quem aprendeu a viver entre o relógio e o perigo. O bairro despertava devagar, mulheres varrendo as calçadas, homens ajeitando as bancadas de peixe, crianças com uniforme remendado. Havia uma beleza triste naquele caos: era o retrato de quem resiste sem nunca ter sido convidado a existir. O táxi azul e branco vinha lotado. O cobrador gritava: “Mutamba, Mutamba! Sobe rápido, mana, que não tem troco!”
Ela sorria de leve e subia. O corpo dela sabia os caminhos, mas o pensamento já estava longe, na universidade, onde o mundo fingia ser mais justo do que era.
*Conto inspirado em "Minha Solidão", da autora.
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