Movimento

Desta raiz me parto

Elisabete Fernandes
AUtor
Elisabete Fernandes
/ foto/ilustração:
Queila Fernandes (“Medindo Medo”, Elisabete Fernandes, 2020)

Volto a Benguela. Onde a dança, a minha, começou. Anos de pausa-activa-pausa-suspensa nas ilhas crioulas. À espera desta explosão onde o meu corpo se contorce em memórias de lugares que já não o são. Corridas de joelhos esfolados e banhos em desaparecidas lagoas para os lados da casa da cerâmica, onde nasci.

Retomo este baile para o refazer, integral, um dia. Retomo-o, dizia, em posição fetal. Ou de quem se prepara, na escuridão quente do líquido primitivo, para o primeiro destelho de luz do sul. Nasço e renasço neste chão. Arranco-me pela raiz. Como casuarina e acácia. No movimento de uma trança grossa e negra, solta em todas as direcções, varro o espaço ao girar do meu corpo. Volto. 42 anos depois.

Desta raiz me parto. E arranco.

Quero dizer e escrever tanta coisa (nem sei como), abraçar tudo e todos. Sinto-me frágil. A minha respiração altera-se constantemente. Neste movimento que oscila, não controlo nada.

Quero dançar. Uma dança de oferenda, a entrar na Igreja da Missão. Ou como se me entranhasse na Praia Morena, lentamente em cada grão. Ao ritmo dos pés de mil escravos que aqui, neste chão movediço e pelos pontões de madeira apodrecida, morreram em vida ao ver o horizonte. Sinto essa batida seca de adeus, os pés arrastados por correntes de metal.

Quero dançar. Com o som das moto-táxis que vão passando e que fazem o meu corpo reagir e apropriar-se de um certo movimento estranho. Estranho movimento, estranha vibração. Aos quais ele, o corpo, se vai habituando sem maka. São latidos de um coração de gasóleo queimado. Máquina com peças que se soltam pelo caminho. Troços de mim que enterrei aqui noutra vida, e que farejo com os dedos cravados no lodo vermelho.

Os pés vão ganhando ritmo e cor, dançante camaleão arco-íris. O cheiro, às vezes, é difícil de distinguir. Até que, de repente, deixa de o ser. Um odor familiar de tempos passados, fácil de identificar, chá-de-caxinde, kissangua, peixe seco... corpo duro e ressequido, salgado pelo mar e sol.

Confusão na minha cabeça. “Comadre, não vais levar?” Na minha, porque na deles tudo está organizado – o peixe é aqui; o carvão é aqui; o fardo é aqui; a rama é aqui; as frutas são lá, lá em cima. O cenário às vezes assusta. Panos, paus, crianças, homens, mulheres; mulheres bonitas, fortes, tristes e em gargalhada. “Comadre, não vais levar?” Aparece o miúdo. “Compra maçaroca, é 100 kwanza. Não tá caro, não tou t’enganar.” “Mana, me pergunta!” As vozes parecem braços saídos das bancas, do chão, caem como raios de todo o lugar. Querem-me agarrar e o corpo baila entre eles – os braços e os raios –, esquivando-se em contorção.

Os meus pés mudam de novo. São agora cor-de-barro daqui. E está tudo bem. Sinestesia. Entendo as cores dos panos, misturadas com as do tomate, do pimentão, da fuba branca, pala-pala, do carvão. Entendo os padrões da praça, do sol, do mar, do céu e da terra. E está tudo bem.

“Comadre não vais levar?" Não levo e entrou noutro mundo...

Na minha dança, encolho cada molécula e enrugo os milímetros da minha pele. Reduzo-me ao espaço vital de matéria.

O táxi é grande, os corpos ainda maiores. Apertamo-nos num espartilho galopante e o suor mistura-se com o perfume. Nesse compasso colectivo, único e incontrolado, coreografado por buracos da estrada, avançamos em uníssono como uma massa uniforme. Na banda sonora, o DJ condutor e as conversas individuais ao telemóvel. E está tudo bem.

Até que chegam eles, os fantasmas.

Reencontro-me com as memórias dos espaços. Confirmo: são espectros, apenas vivem em mim e nos mais-velhos – os únicos que sabem onde estava cada peça do antes. Onde estava a lagoa onde lançava pedrinhas e via o reflexo da minha cara em círculos infinitos, como um ritual… a rua que era grande e espaçosa… e aquela árvore... o senhor Osvaldo, a dona Teresa. Bate um vazio e o espaço-tempo corrompe o meu corpo. Os olhos viram-se para dentro onde tudo vive, mas já nada existe.

Lanço-me.

Vertigem, escuro, centro da terra como útero.

Afundo-me num doce rumor.

Esta mulher lembra-me a minha infância… Em regressão, salto de novo cordas delgadas na poeira da Camunda. Vejo outra vez a terra secar depois da chuva forte. Crratxi, crratxi – a terra estaladiça e quebrada pelo sol abrasador cede aos nossos passos. Vejo-me lá atrás da janela da casa que me nasceu. Olho as mamãs, pisam o milho. Bac-bac-bac-bac. O milagre da fuba e o seu ritmo cadenciado. Golpes secos do pilão e o estalar dos grãos. Bac-bac, braços fortes e os cânticos em umbundo-melodia, que sussurrava de mim para mim, atrás dessa janela por onde via passar a guerra e que vibrava com bombas lá longe. Através do vidro desfilavam soldados de diferentes fardas. Desordenados ou em formação, pisavam a rua onde brincávamos. Crratxi, crratxi, gemiam as botas de homens na terra quebrada depois das chuvas. Mamã! Papá! Ssshhhh. A mão na boca calava-me o grito.

Pára!

Uma mota desorientada roça-me o corpo. Uma pirueta involuntária arranca-me do passado. Lança-me com força bruta nesta dança frenética do momento.

Detenho-me. Se organiza, mana!

Volto à rua e ao esquivar das vozes, das motas e dessa memória que suga o corpo e a alma antes de me atirar, como um projéctil, para uma realidade de sol ardente. Também os olhares sobre mim bailam. Tristes, alegres, confusos, desconfiados. Optimistas, esperançosos. Vêem-me com atenção ou indiferença. Sinto-me parte desta dança, às vezes; noutras, visitante. Como uma luz que se acende e apaga sobre mim, volvendo-me um ser intermitente.

Não me lembrava desta palavra, mas de repente sai-me da boca: dendém! Cuia bué!

Esta cidade é linda, estas pessoas são lindas. É uma dessas lembranças que sempre voltam…

Nesta linha delgada, as impressões do regresso. Conduzem uma coreografia em execução que apresentarei nestes espaços que me formaram a carne e o olhar. As memórias regressarão um dia a este palco grande.

O meu corpo treme, desfalecem-me os músculos e abandonam-e os braços. Tenho medo de me despedir.

No regresso de mim para mim, morro e nasço de novo.

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