Luzééé

Pérolas aos porcos

Taiana Machado
AUtor
Taiana Machado
/ foto/ilustração:
Irad Verkron / Zoniriziz

aquietei os encontros

como quem guarda pérolas

não lembro bem

quando ganhei a capacidade

de transformar encontros em pérolas 

mas lembro quando descobri que

exercia poder a partir deles

quando a amiga

me disse que tinha um segredo a contar

cheguei a casa

abri a caixa de jóias

e já lá havia uma pérola 

onde se liam pequenas

mas com clareza

as suas iniciais

mais tarde

um artista estrangeiro

confidenciou-me histórias

de exílio e de luta

em sua terra natal

mais outra pérola surgia

quase sobrenatural

na caixa de madeira gasta

havia ainda o plano de vida

que me confessou um mais velho

em discurso de força e mudança social

e dentro do porta-jóias

uma pérola nascia

com brilho descomunal

foi assim por toda a vida

cada pérola um lume

cada lume

um encontro

até as ter suficientes para um colar

entretanto

um rompante

[alguns diriam feitiço]

um homem me atravessou

jurou cuidado e compromisso

contanto lhe entregasse

o meu colar de memórias

dei-lhe

e me apercebi no instante seguinte

começava a perder o nome das minhas pessoas

não me recordava suas histórias

tampouco as iniciais me ajudavam

a lembrar seus rostos

pérolas sem lume

colar sem histórias

memórias partidas

carcaça vazia

a caixa de madeira apodrecia

tramei minha vingança

roubei de volta o colar

joguei aos porcos as pérolas

enchi um copo com gin

e incendiei a casa em que vivíamos

enquanto assistia o lume do fogo

comendo a carcaça e a casa

no horizonte

a lua em pérola

fazia questão de lembrar

que de memórias e nomes

é que se faz um colar

mais artigos