
aquietei os encontros
como quem guarda pérolas
não lembro bem
quando ganhei a capacidade
de transformar encontros em pérolas
mas lembro quando descobri que
exercia poder a partir deles
quando a amiga
me disse que tinha um segredo a contar
cheguei a casa
abri a caixa de jóias
e já lá havia uma pérola
onde se liam pequenas
mas com clareza
as suas iniciais
mais tarde
um artista estrangeiro
confidenciou-me histórias
de exílio e de luta
em sua terra natal
mais outra pérola surgia
quase sobrenatural
na caixa de madeira gasta
havia ainda o plano de vida
que me confessou um mais velho
em discurso de força e mudança social
e dentro do porta-jóias
uma pérola nascia
com brilho descomunal
foi assim por toda a vida
cada pérola um lume
cada lume
um encontro
até as ter suficientes para um colar
entretanto
um rompante
[alguns diriam feitiço]
um homem me atravessou
jurou cuidado e compromisso
contanto lhe entregasse
o meu colar de memórias
dei-lhe
e me apercebi no instante seguinte
começava a perder o nome das minhas pessoas
não me recordava suas histórias
tampouco as iniciais me ajudavam
a lembrar seus rostos
pérolas sem lume
colar sem histórias
memórias partidas
carcaça vazia
a caixa de madeira apodrecia
tramei minha vingança
roubei de volta o colar
joguei aos porcos as pérolas
enchi um copo com gin
e incendiei a casa em que vivíamos
enquanto assistia o lume do fogo
comendo a carcaça e a casa
no horizonte
a lua em pérola
fazia questão de lembrar
que de memórias e nomes
é que se faz um colar

