Uma terra ferida não pede heróis, pede mãos que não soltem o mesmo peso. Pois quando os corpos se recusam a largar o peso uns dos outros, a história começa finalmente a sarar.

Texto curatorial
Corpos em argila organizam-se em tensão silenciosa. Virados de costas uns para os outros, parecem vigiar diferentes direcções do tempo. Entre eles, um vaso é sustentado como quem guarda algo delicado e frágil: talvez lembranças, talvez cura.
A escultura repousa sobre um círculo dourado. Este círculo pode ser lido como a riqueza da terra angolana; abundante, disputada, carregada de histórias. Mas também como um chão onde permanecem inscritas marcas profundas: das invasões dos grandes reinos aos reinos menores, da violência colonial às guerras que atravessaram o país, das fracturas sociais que habitam o quotidiano às inquietações de uma juventude urbana que cresceu entre sobrevivência e reinvenção nas ruas de Luanda.
Sem apontar culpados nem oferecer respostas fechadas, a obra propõe um gesto: sustentar. Cada corpo permanece distinto, mantendo sua posição e sua própria direcção. Ainda assim, algo é carregado em comum.
Talvez seja nessa tentativa de equilíbrio; entre diferença e responsabilidade partilhada, que se possa imaginar outras possibilidades de convivência.
Sobre o círculo da terra ferida, os corpos lembram que nenhuma cura é individual. Toda reparação começa quando alguém decide não largar o peso sozinho.
“A vida do homem faz-se com os outros.” - Uanhenga Xitu
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