Matriz

Uwargida

Chiké Frankie Edozien | Tradução: Déborah Cardoso Ribas
AUtor
Chiké Frankie Edozien | Tradução: Déborah Cardoso Ribas
/ foto/ilustração:
Daniel Kuma

Por amor, Maryam usou os véus e o hijab. Esforçou-se muito. Mas cobrir-se não era natural para ela. Maryam sabia que tinha de respeitar a cultura do marido, mas gostaria que a família dele se tivesse dado ao trabalho de a fazer sentir-se bem-vinda. Pareciam sempre encontrar formas de relembrá-la de que era uma forasteira. Então, ela parou de tentar.

Um dia, depois de um suposto insulto, Maryam transferiu o rebanho de carneiros ladoum do marido e as suas vacas, do quintal da casa para outra terra que ele possuía. Depois, contratou paisagistas para transformarem o terreno da sua casa em jardins bem cuidados com canteiros de flores exóticas raras. O marido não se importou. Mas as irmãs dele abanaram a cabeça e disseram que a sua esposa estrangeira não compreendia que a riqueza de um homem devia estar à vista de todos, com os seus animais caros no quintal.

Estrangeira? Maryam abanou a cabeça. Para elas, apenas não ser haúça já a tornava estrangeira. Fora do seio familiar do marido, a sua vida era boa. Maryam costumava gastar com a decoração de interiores e recebia as amigas de Lagos. Era de classe alta. As empregadas usavam uniformes e ela queria que a sua casa fosse tão confortável como qualquer resort de luxo. Todos os seus lençóis e toalhas fofas eram comprados na Harrods** sempre que ia a Londres. Adorava tanto a loja, que todos os outros itens da casa vinham de lá, até os sabonetes e loções de laranja e bergamota que estavam em todos os quartos de hóspedes eram de fabrico britânico. Os convidados eram recebidos com biscoitos amanteigados e chá de Darjeeling servido na porcelana cara.

Maryam ainda não tinha engravidado, e as Irmãs Fofoqueiras murmuravam alto que as casas precisam de estar preenchidas com crianças energéticas e ruidosas. O casal esteve muito focado nos negócios nos últimos anos; Maryam fora convidada para abrir e liderar o escritório regional de um gigante de contabilidade americano. Até que engravidou de um filho. Dois anos depois, chegou uma filha. Em ambas ocasiões, Maryam foi a Londres dar à luz. Agora a família estava completa. Eles falavam com os filhos em haúça, igbo e só depois em inglês. Foi então que o ressentimento começou a tornar-se palpável. O marido tornava-se cada vez mais bem-sucedido, e as suas Irmãs Fofoqueiras começaram a xingar Maryam pelas costas. Algumas vezes, chamavam-na de “Esposa do Estrangeiro” por causa das viagens frequentes à América. Outras vezes, de “Esposa com Licenciatura”, porque ela se orgulhava tanto da sua formação.

Maryam sabia que o que mais as incomodava era a sua relutância em abandonar completamente a sua herança igbo, e o facto de ela e o marido também falarem com os filhos em igbo era ofensivo para elas. As irmãs aumentaram a pressão para o marido arranjar outra esposa. Mas ela não estava preocupada. O seu homem não tinha olhos errantes. Estava demasiado ocupado a fazer fortuna. Em casa, ele era tão carinhoso e romântico como nos tempos da universidade.

– A culpa não é delas. É a nossa cultura. Culpa-me a mim, se quiseres.

Ele adorava as irmãs, mas não conseguia controlá-las. Quando estavam sozinhos, ele punha Michael Jackson a tocar e insistia para dançarem. Maryam era bonita. Ela sabia disso. Mas já não era uma mocinha.

E então, de repente, um dia o marido deu-lhe a notícia, o horror dos horrores. Teria uma segunda esposa. Sentiu como se o seu mundo tivesse desabado, quando se sentaram e ele lhe contou que o seu noivado com uma mulher local era iminente. Tudo abrandou. Ela ouviu o vento a soprar e o farfalhar das folhas das árvores. Ouviu os pássaros a chilrear alto no seu aviário. Ouviu as palavras. Sabia o que significavam, mas ainda assim não as conseguia compreender. Não era o Dia das Mentiras. Ele não estava a brincar. O seu marido estava frio e calmo, mas mortalmente sério. E então, ela gritou:

– Mas que raio. Mudei-me para cá por tua causa. Até me converti por ti. Dei-te filhos – lamentava, agitando os braços. – Tudo como tu querias.

O marido manteve-se calmo e isso enfureceu-a ainda mais.

– É apenas algo que preciso de fazer. E não significa que não te ame. Sabes disso. Simplesmente preciso de casar de novo. – Como se isso pudesse melhorar as coisas, acrescentou – vai ser algo muito discreto.

Ele não parecia ter deixado de amá-la. Pelo contrário, mostrava-se mais atento, amava-a com mais intensidade. Faziam amor ainda com mais frequência. Os corpos ansiando um pelo outro como nos tempos da universidade. Ela passou de confusa e zangada a simplesmente aceitar o seu destino.

Nenhuma das suas amigas achou que fosse um grande problema. Os sogros acolheram a nova esposa de braços abertos e trataram-na como se fosse a uwargida, a primeira e única esposa. A mulher era respeitosa com Maryam, chamando-lhe simplesmente Hajiya***. Aos olhos de Maryam, ela era uma cabra. Não havia afinidade. A segunda mulher deixou de trabalhar e imediatamente engravidou. Maryam teve de admitir que não era má pessoa, até era agradável aos olhos. A sua única ambição era arranjar um bom marido. A mulher teve três filhos, um atrás do outro. E o marido anunciou que se ia casar novamente. Desta vez, com a filha de um aristocrata de Kano. Maryam não ficou surpresa quando aquela outra esposa engravidou logo.

Maryam, sem avisar, foi para Londres passar algum tempo sozinha. Só queria um pouco de paz. E, enquanto passeava, começou a ver casas; num impulso, fez uma oferta e comprou uma pequena casa de três quartos, usando os fundos da conta bancária estrangeira do marido. Aos quarenta e tal anos, o marido tinha agora seis filhos e parecia que não ficaria por aí. Mas ele era mais rico do que ambos alguma vez imaginaram. E ela desejava fazer as malas e partir agora.

Crescer com a poligamia era tóxico, mas o seu homem insistia que não tinha de ser assim. Enquanto relaxavam num banho de espuma na sua casa em Londres, ele disse-lhe carinhosamente que o lugar dela na sua vida estava seguro.

– Sabes que és o amor da minha vida. E sempre serás. A minha princesa de dentes separados.

Maryam não estava totalmente convencida.

– Claro que não é mau para ti. Podes dormir com outras mulheres e deleitar-te com todo o poder que o patriarcado te confere!

– Ha! – Ele soltou uma gargalhada. – Vês por que te chamam “Esposa com Licenciatura”? E depois ainda te irritas! E elas não são apenas outras mulheres, são as tuas irmãs-esposas.

Maryam deu muxoxo.

N.d.T. Umas das mais valiosas raças de ovelhas. | **N.d.T. Famosa loja de departamento britânica, em Londres. | ***N.d.T. Forma de tratamento formal para uma mulher com alto estatuto social.

Original in English

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