Uma pequena comunidade, o "Monte das Pedras", no alto de um morro, sofre de uma forte seca. A população é obrigada a testemunhar, angustiada, a outra aldeia abaixo na margem do rio, verde e abundante, a "Comuna Verde". Certo dia, misteriosamente, bem na fronteira entre as duas aldeias, começa a surgir do solo um tubo corrugado vermelho. O acontecimento causa espanto e logo se vão criando discussões sobre o caso. A grande questão surge quando, insolitamente, se apercebe que cada aldeia enxerga o tubo com a cor da sua bandeira representativa.
Capítulo 1
“Nzo nzala ke yi lundisilwanga madia ko”
(EXT. CIDADE - ESTRADA PRINCIPAL - DIA)
Uma rua em obras, dividida em duas faixas de estrada, empilhada de carros, todos a tentarem passar à frente uns dos outros. Ouvem-se buzinas estridentes mais o ruído dos motores e os vendedores ambulantes dispersos, que colaboram com o sol para aquecer mais o dia, e há um imenso nevoeiro de poeira que cobre a estrada e os passeios.
(EXT. PASSEIO CAÓTICO COBERTO DE POEIRA - DIA)
No passeio, as vitrines se exibem completamente cobertas com poeira, e o nevoeiro de pó mal deixa ver as pessoas que vão passando. Um homem estreito, 45, roupa formal, calça à "Papa" e camisa creme, dobrada até ao cotovelo. Agarrada ao pescoço, uma paciente gravata vermelha, imersa no pequeno lago de suor que enfeita o seu peito. Na mão, carrega uma mala. Caminha em direcção à câmara e para.
MANO DOS CORREIOS Bom dia, família, como vêem, se assim vos dirijo, um algo então a anunciar. Logo eu, moço dedicado aos recados, aqui do Centro dos Correios. Aqui para vos explicar de dois irmãos. Dois animais na selva, providos com muito poder. Jamba é apresentado como o Elefante e Hossi encarna o Leão. Assim que nascem, é-lhes logo soprado pelo ventre dos compromissos e diligências pelo Reino, por os dois terem responsabilidade pelos demais animais.
Mano dos Correios está agora sentado numa velha secretária de madeira, num escritório mofado e mal iluminado. À frente tem um pedaço de papel branco onde, com um lápis, começa a desenhar o resto da estória, enquanto narra.
MANO DOS CORREIOS Jamba, por possuir força bruta e porte gigantesco, é desajustado e rude, ainda mais é desprovido de beleza. Hossi, por sua vez, é elegante e carismático, e conquista a simpatia no seu meio. Jamba, então invejoso e ciumento decide isolar-se e cria um reino longe da margem do rio. A sua liderança é fracassada pela falta de delicadeza e destrói tudo à sua volta, até o seu reino se tornar pedras, transformando tudo em ruína e fome. Hossi aproveita a margem do rio que o rodeia e cria uma comunidade rica e abundante. Mas Hossi também esconde uma fraqueza dos seus, o rio da prosperidade não pára de subir e segundo os seus conselheiros, se dentro de quatro estações não se intervir, certamente irá afundar o reino inteiro. A solução será então pedir algumas das pedras usadas pelo irmão, que irão poder estancar as águas do rio. Mas só para nós percebermos bem, que nesta estória também vai jorrar sangue.
CORTE.
(EXT. FRONTEIRA QUE SEPARA AS ALDEIAS - MANHÃ)
O galo no telhado casca a pena negra sobre a chapa luminosa. As patas queimam no alumínio, afinando o canto da manhã. Hoje é um dia. Há pelo menos uma intenção no tubo espetado na terra. Duas pequenas localidades rivais, divididas por uma longa fronteira imaginária, que ninguém do lado oposto se atreve a cruzar, respeitando um antigo acordo.
Em cima, o “Monte de Pedras” liderado por Velho Jamba. Árido, rico em pedras e invulgarmente seco. A areia a ferver desafia o sapato mais duro e atinge o pé. Este lugar dá-se tão bem com o sol, alheio à vegetação, e vive com fome. E em baixo, nas margens do rio, a invejada “Comuna Verde”, comandada por Hossi. Quanto brilho o sol não empresta a essa bela margem de rio, vaidosa da decoração natural que a rodeia. O capim que se move, arrepiado, com a vontade do vento, mais o rio, que não pára de subir.
O dia apresentou, no centro da fronteira, surgido misteriosamente de dentro do solo, um enorme tubo vermelho espetado. Uma grossa tubagem de plástico que se rompe do solo até metro e meio de altura. As populações das duas localidades cercam o objecto, curiosas e confusas começam a cochichar entre si, mais alto que as possibilidades do insólito.
AGOSTINHO, 25 anos, jovem destacado do Monte de Pedras, preocupado com as urgências sociais da comunidade. Pela sua moderação e bom senso, é tido como conselheiro e é uma voz relevante entre os mais velhos. É acompanhado por TI XAVIER, 50, uma versão de Agostinho com mais idade. Os dois destacam-se entre os demais, ousam estar mais próximo da tubagem.
Do lado oposto, guardando a Comuna Verde, está Cardoso, fixo a olhar para o Tubo. CARDOSO, 26, arrogante e fiel vigilante da Comuna Verde, passa o dia a monitorar a fronteira. Céptico, desconfia de todas as intenções ao seu redor, prestando apenas respeito a Hossi, que nas prosas curiosas do povo, dizem que Cardoso é seu filho bastardo.
AGOSTINHO Com toda a colaboração, eu adivinho uma situação que nos pede conversa.
TI XAVIER Rapaz Agostinho, acaba de ecoar as suas palavras nas minhas. É só ouvir o vizinho Cardoso com a sua ideia.
CARDOSO Eu tou aqui em nome do meu líder, e ele na sua altitude nos irá explicar. Eu mesmo, só sei o que está à minha frente. O porquê das coisas já não consigo te explicar.
AGOSTINHO Vizinho Cardoso, Ti Xavier, esse tubo que nasceu aqui... Tás a ver quê, que cor?
TI XAVIER Ou caiu, é como?
CARDOSO Ou alguém que sabe muito agiu com a mão dele. Ti Xavier aproxima-se mais do tubo, pisando a linha da fronteira bem no meio com a sua pata mais corajosa.
TI XAVIER Tá me dar m’bora amarelo nas vistas.
Cardoso mira os dois ao mesmo tempo.
CARDOSO Vocês não batem, só pode. Agostinho, sem tirar os olhos do tubo, incrédulo.
AGOSTINHO Mas como assim vizinho?
Cardoso, sem empatia, lhe procura a cara.
CARDOSO Nem é assim que se brinca. Um conselho, se esse tubo não é verde, vocês tão a brincar comigo.
Agostinho a olhar ao redor confuso.
CARDOSO Tou-vos a dizer.
Surge de repente, ao lado deles, uma senhora vestida toda de branco, IRMÃ MARIA, 67, madre responsável da capela e assistente social. Caminha rodeada de crianças desnutridas, que alimenta com pedaços de pão. Uma senhora magra, outrora de aspecto pálido, agora o seu rosto está tão rígido e queimado como o Monte de Pedras. Arrasta com orgulho um hábito outrora branco da castidade, roído nas pontas pelos eternos confrontos com a terra, de vez em quando desvendando as sandálias empoeiradas, ou um santo sacrifício nos pés. O fumo da terra batida banha o ar. Agostinho vira-se para Irmã Maria.
AGOSTINHO Irmã, acode então esta dúvida. Afinal a Irmã é daltónica, tá visualizar vermelho no tubo.
IRMÃ MARIA O que eu estou a ver, filho, que Deus me livre!
AGOSTINHO ...bem na fronteira das duas Comunas, se é em vão? Não sei... Vejo mais Deus Nosso Senhor a se meter nessa estrutura.
TI XAVIER Seja o que for, consigo apalpar a troca que estamos a treinar há anos. Finalmente um panteão da permuta entre as aldeias.
IRMÃ MARIA É o esquecimento da palavra, há muito que venho avisando do desleixo com a palavra do Senhor.
E fez sinal de prece. Agostinho respeitosamente encostou-se ao lado da Irmã. Imitou a prece também.
AGOSTINHO Irmã Maria, vamos sim precisar da sua fé, eu mesmo, jovem desleixado também vou já respeitar a cruz que carregas. Mas a minha dúvida agora Irmã... O que é esse tubo aí?
IRMÃ MARIA Menino Agostinho, vergonha é mesmo matar e roubar... Acredita. Colocar os olhos no caminho certo, sem medo, Deus assim vai escutar a tua curiosidade.
Agostinho está com os olhos postos no tubo, que ele vê num amarelo reluzente.
CARDOSO Meus amigos, tão a se emocionar só, a misericórdia também corrompe. Tão a escrever só Deus nas vossas bocas, sei se vocês sabem, o Diabo também actua na forma de homem. Eu, por exemplo, entendo melhor assim.
AGOSTINHO Daí o suspiro pela prosa primeiro, e sei sim (começa a falar com a cabeça baixa), só o Senhor age em forma de equação.
Cardoso observa-o desconfiado e interrompe.
CARDOSO Tá bem, tá bom, mas enquanto não sai resposta das matemáticas e menos das rezas, manos, vamos ainda só colaborar, vamos afastar só daqui do terreno.
Irmã Maria, silenciosa e serena, lança algumas migalhas de pão seco do seu bolso às crianças, que divertidamente se sacodem para apanhar cada uma o seu pedaço, e ela então aperta o crucifixo sobre as mãos e volta a rezar.
CORTE.
Com o Domingo não se brinca.
(INT. MONTE DE PEDRAS. CASA DE VELHO JAMBA - DIA)
Um quarto escuro e abafado, ornamentado com mobília e objectos velhos e em pobre estado de conservação. Uma cómoda no quarto, madeira pura, que apoia com orgulho o retrato de um senhor, um bigode bem cortado, num rosto a preto e branco, um sorriso, oferecido à eternidade.
VELHO JAMBA está no quarto sentado na cama. O quarto está escuro, tirando a luz que vem da pequena janela que lhe descobre as rugas, mesmo ele evitando o rosto para o chão. O velho, toda a composição dele sentado na cama; um coração pesado e seco, imitando as pedras lá fora. Tossiu de um coro, adivinhando a silhueta a tapar as suas costas.
QUINA, 22, filha do Velho Jamba, é a preferida, e por isso a única pessoa capaz de influenciar as decisões do pai, excepto quando se trata de propor que se acabe a mágoa entre as aldeias. Tímida, constrói um beco apertado na entrada do quarto, pretende que o velho ainda não a convidou, mas se apresentou com o guincho da porta entreaberta.
VELHO JAMBA Tou a te escutar, você aí.
Quina envergonhada com a cabeça baixa mantém-se.
QUINA Pai...
VELHO JAMBA Não tenhas essa parede, os meus ouvidos chegam até ti, não é assim?
QUINA É sim, pai.
VELHO JAMBA Então, razoavelmente também se arreliam com lá fora. Mas são muitas vozes. Me explica ainda tua.
Ela timidamente começa a entrar no quarto. Velho Jamba segue com os ouvidos os seus passos.
VELHO JAMBA E essa tremura?
Ela com a cabeça para o chão.
QUINA Desculpa, é que me mandaram para avisar ao pai...
VELHO JAMBA Bué de vozes, ninguém me avisa nada. Só tu, filha.
Velho Jamba levanta-se calmamente da cama. Sem olhar para ela, dirige-se ao enorme baú no canto do quarto. Abre e vasculha o que está dentro, sem dizer nada.
VELHO JAMBA Tem aqui coisas dos mais velhos, tenho de ver bem isso também.
QUINA De quê, Pai?
VELHO JAMBA De antes e de agora, filha. Não devemos ter medo da arrumação.
Quina, mais confortável, começa a aproximar-se do velho e repara com repulsa nas moscas que saem, frenéticas do baú.
QUINA Bué de bichos à volta, Pai...?
As moscas, certeiras, atacam a lâmpada amarela bem em cima da cama, que com modéstia tenta iluminar o quarto.
QUINA Assim é quê, é mel, é curiosidade?
Velho Jamba oferece o rosto ao espectáculo por cima dele.
VELHO JAMBA É mesmo como se fosse mesmo uma luz, já viste? Todas moscas à volta da lâmpada.
QUINA Pai, tão a falar de muitos motivos, qual é então a ideia por detrás das adivinhas locais, e se agora serve de quê?
VELHO JAMBA Tão a querer se meter na nossa conformidade, é isso. Você viste como o que tá lá fora?
Quina endireita a postura, notoriamente desconfortável.
QUINA Se é isso que me incomoda, tão a se suportar com o nosso bem-estar. Pai, nasceu um tubo na fronteira. Bem no meio.
VELHO JAMBA Eu sei.
QUINA Pai, se eu vi bem, mesmo assim que tá na minha frente agora. É amarela, a tubagem. Pai nos fala.
VELHO JAMBA Eu sei. É sim uma situação.
QUINA Nem que não, eles de lá tão de maldade a falar é verde. Nem mesmo Pai. Nem mesmo.
Quina engoliu em seco mais três perguntas e mais um abraço para fechar o encontro com o velho. Essa ideia cobriu-a quando estava já no corredor, na saída do quarto.
CORTE.
Desce um rio, nasce um mar de pedras
(INT. COMUNA VERDE. SALA DE REUNIÃO de HOSSI-DIA)
É uma pequena sala, meio apertada para abrigar a comprida mesa de madeira que ocupa o espaço todo de um canto ao outro.
Velho Hossi, eufórico, levanta-se do centro da mesa. Os seus súbditos imitam-no coreograficamente e adivinham no rosto do líder um sorriso prepotente que contamina a sala toda. Entre apertos de mãos e beijinhos nas bochechas se cumprimentam mimando a vontade de Hossi. Este, indiferente aos esforços de elogio, tenta encontrar a saída da sala. É então que Cardoso, com passos leves mas objectivos, calmamente mas ofegante, caminha em direcção do líder, Hossi percebe a pressa do seu súbdito. Com semblante sério o encara.
VELHO HOSSI Cardoso...
Cardoso, servente extraordinário, mal consegue olhar para as pupilas de Hossi, e encosta no chefe com os olhos a colarem no chão... e a timidez do homem só o deixa estender a mão direita ao chefe.
CARDOSO Sim, chefe...
VELHO HOSSI Vem, se esquiva ainda aqui ao meu lado.
Os outros olham com curiosidade enquanto saem da sala.
VELHO HOSSI Assim mesmo, meu caro Cardoso, te confio um pouco, né assim? Chimuco tímido.
CARDOSO É sim, pai.
VELHO HOSSI Esquece isso ainda de pai, você é um homem esperto, caminhaste também em várias aldeias, é só ver o teu aspecto, cansado mas seguro de si. Não é assim?
CARDOSO É uma tentativa de me espelhar na Sua Excelência.
Velho Hossi puxa-o para mais perto de si.
VELHO HOSSI Então, já me esfregaste de elogios, agora vamos ainda falar de coisas não menos sérias. Aí na fronteira, é como?
Cardoso, sem saber como responder, vira a cara para o chão.
CARDOSO Tá mesmo lá uma tubagem. Só posso falar da minha cabeça, que o tubo é ‘mbora verde, é nosso.
Velho Hossi pega na mão de Cardoso e puxa-o para dentro da sala. Mantêm-se de pé, um à frente do outro.
VELHO HOSSI Alguém meteu lá aquilo para nos confundir.
CARDOSO Também falei isso.
Cardoso encara os olhos do Velho pela primeira vez.
CARDOSO Eu tou a entender que tão a querer a nossa água. É ideia lá do Monte para sugarem o nosso rio, só pode. Assim temos que lhes prestar satisfações da nossa fortuna?
VELHO HOSSI És um jovem que às vezes se assustas à toa, mas desta vez estou contigo.
CORTE.
Não é a Lua que irrita o Sol
(EXT. MATA - FRONTEIRA ENTRE ALDEIAS - NOITE)
Sob o luar, descobre-se a sombra de Agostinho entre golpes de catana nos arbustos. Com uma fraca lanterna alcança no fundo fumo no ar, aproxima-se e vê instalado um pequeno acampamento. Há uma fogueira a meio-gás que dá tom ao lugar, mas dentro da tenda de pano, um enorme pano branco esticado, há uma sombra irrequieta. Agostinho repara, desconfiado. A sombra sai da tenda e dá de cara com Cardoso, que guarda a fronteira das Aldeias.
AGOSTINHO Parente, é boa noite?
Cardoso vira calmamente para Agostinho.
CARDOSO Tás a andar mesmo bem?
AGOSTINHO Boa noite.
CARDOSO Tou a ver e assim, explica então o teu caminho?
Agostinho olha para as mãos de Cardoso e repara na AK-47 que ele, com a mão direita, arrasta o cano no chão. Cardoso, com o canto do olho também, mira a catana que se desvenda atrás da calça de Agostinho.
AGOSTINHO Também vim dar nesse caminho, um pensamento mais outro, se assustei dei contigo.
CARDOSO Eu nem te conheço bem, mas já tou a adivinhar que és corajoso.
AGOSTINHO Mano, da tua boa vontade e compromisso com o teu labor, já te percebi, só vou te pedir um favor, irmão, é à frente o meu caminho.
E dá um passo. Cardoso segue o passo e olha para ele, desconfiado.
CARDOSO Agostinho, mesmo dentro de mim já ri da tua abordagem, de boa vontade também vou te dizer, uma vez mais, recua só.
AGOSTINHO Nem podemos conversar?
CARDOSO Assim quê, vais explicar, eu vou explicar, e ficamos como?
AGOSTINHO Vamos se entender?
CARDOSO Tá tarde, vou te ouvir dos teus problemas com a luz do sol, né assim?
AGOSTINHO Você sabe, de dia é de se mentir muito, você sabe...
CARDOSO Irmão, uma vez, recua só.
Cardoso faz um gesto com a mão direita que carrega a arma, posicionando-a contra Agostinho. Agostinho repara, e meio hesitante dá um passo.
CARDOSO Irmão, recua.
Agostinho dá uma olhada na sua arma empunhada.
CARDOSO Não tou a falar por mim.
Agostinho insiste e dá mais um ligeiro passo.
AGOSTINHO Tás distraído ao que acontece ao nosso redor, assim tá bom? Não é de força e ameaça, é de comunhão irmão.
Cardoso mantém a arma apontada.
CARDOSO É sim, e é de cada um cumprir a sua missão.
Agostinho, desiludido, baixa a cabeça.
AGOSTINHO Não tamos no mesmo provérbio, já vi.
CARDOSO Não tamos mesmo, irmão, recua.
Agostinho dá mais um passo em frente, os dois olham um para o outro directamente. Cardoso empunha a arma com mais vigor e aponta para Agostinho. Agostinho dá um suspiro e, relutante, dá mais um passo.
CORTE.
Ninguém acordou o corpo, que descanso de operário digno é sagrado. De manhã cedo, uma mancha vermelha no peito. A população à volta, assim que envolveram o espectáculo, logo entenderam sangue.
CORTE.
(EXT. JANELA QUARTO DE JAMBA - MONTE DE PEDRAS-DIA)
Irmã Maria encosta-se fora da janela de Velho Palma.
IRMÃ MARIA Irmão Jamba, com a licença... O Irmão tá aí?
O ruído do catarro a entupir a garganta anuncia-o.
VELHO JAMBA Irmã...?
O ar ao redor berra um estridente eco – “Agostinho, ué!!!”.
IRMÃ MARIA Com uma bala no peito... deram com ele caído na fronteira, bem ao lado do tubo. Tão a dizer foi o Cardoso.
VELHO JAMBA Possas, Agostinho... lhe dizia para caminhar devagar... é uma perda, Irmã.
IIRMÃ MARIA Que Deus o tenha.
VELHO JAMBA E os de lá, falaram como?
IRMÃ MARIA Ainda. Devem estar a escolher as palavras. Mas cá dentro depois das lágrimas vão querer conversar... Que é assim venho pedir uma palavra.
Ti Xavier aparece e caminha receoso, em direcção à janela.
VELHO JAMBA Xavier, te conheço os teus passos. É como?
TI XAVIER É isso, chefe.
VELHO JAMBA Como estão as tuas ideias?
TI XAVIER As minhas palavras querem se encontrar com as do chefe, mais a sabedoria divina da Irmã. Devemos agir antes da lua. O nosso povo já começou a pôr pedras nos bolsos.
IRMÃ MARIA É verdade, Irmão Jamba. Quando essa gente ficar rouca do choro não vão saber conversar.
Ti Xavier, triste, baixa a cabeça, confirmando o anúncio da Irmã Maria.
VELHO JAMBA Vais descer lá e vais cobrar um esclarecimento.
TI XAVIER Tá bem, chefe.
E começa a caminhar.
VELHO JAMBA Espera ainda... Leva a diplomacia. Não atira palavras contraditórias.
TI XAVIER Tá bem, chefe.
E Ti Xavier segue caminho abaixo
VELHO JAMBA Irmã, tenho um pão na minha mão, os teus pequenos...
IRMÃ MARIA Velho, ainda tenho um farelo guardado prás crianças. Guarda, duro como está também pode servir como arma. E que o Divino desminta estas minhas palavras...
VELHO JAMBA Tou a te escutar Irmã...
Aponta para Ti Xavier, ao longe.
VELHO JAMBA Lhe segue.
CORTE.
(EXT. ESTRADA EM DIRECÇÃO À C OMUNA VERDE – FINAL DO DIA)
Ti Xavier e Irmã Maria descem até à Comuna Verde procurando o diálogo. Ela no volante do Land Cruiser Branco. SAIVOADO, 17, um miúdo insurrecto do monte, tronco nu e descalço, sempre apoiado com a mão no calção jeans largo e empoeirado. Segue- os sorrateiramente, pendurado no pneu preso na porta traseira.
(NOITE – COMUNA VERDE)
Montagem de planos de várias mãos na Comuna Verde a pintarem e prepararem um cartaz improvisado em que se lê: “PEDIDO DE CONVERSA COM O MONTE DE PEDRAS AQUANDO DO ACIDENTE OCORRIDO COM O VIZINHO AGOSTINHO”
(NOITE. MONTE DE PEDRAS)
Montagem de planos do óbito de Agostinho. Toda a gente chora à volta da fotografia emoldurada do falecido. Uma vela ao lado.
(EXT. FRONTEIRA – NOITE)
Irmã Maria e Ti Xavier estacionam bem defronte à linha da fronteira. Os faróis da carrinha inundam não só o tubo, como o grupo atento da Comuna Verde, que os espera. Ti Xavier aproxima-se da fronteira, cola os olhos no tubo amarelo por uns instantes e começa a assobiar para o lado.
TI XAVIER Com a devida licença, viemos dialogar, acima de tudo também ouvir o quê da vossa parte.
O Conselheiro da Comuna Verde aproxima-se calmamente de Ti Xavier. Cardoso e os seus soldados pairam por trás, com armas apontadas para o chão.
CONSELHEIRO MATIAS Xavier, os meus olhos que te encontrem bem, vizinho. Irmã Maria... O Senhor é connosco através da tua figura.
IRMÃ MARIA A bênção para nós da terra.
Em uníssono todos reclamam “Amém”, à excepção de Cardoso.
CARDOSO Tá bem, mas não tamos aqui para rezar.
Aproxima-se com a AK a roçar o chão empoeirado.
CARDOSO Não vou se mentir. Eu também empilhei uma culpa para causar este momento.
Atira os braços para o ar, empunhando agora bem a sua AK.
CARDOSO Produzimos esse cartaz...
E aponta para o grande cartaz à sua atrás com os dizeres já mencionados.
CARDOSO Eu vou desculpar? Sim, vou. O vizinho Agostinho, essa noite que vocês estão a ver...
Com o braço doido, obriga todos a seguirem..
CARDOSO Vejam só se dá para ver alguma coisa, um quê?! E é assim que eu não avistei o Agostinho.
Baixa os braços, com os olhos agora no chão.
CARDOSO E tou aqui humilde, cheio de vergonha, a representar o meu líder.
Meio constrangido, o Conselheiro corrige a cena.
CONSELHEIRO MATIAS Como queremos, antes mais, estamos aqui para mostrar a nossa solidariedade e apresentar a desculpa pelos nossos erros. A Irmã Maria vai nos fazer entender melhor com a Graça do Senhor.
IRMÃ MARIA Vou sim, mas é sempre mesmo o Senhor que decide.
CONSELHEIRO MATIAS Que assim seja, Irmã. Como o jovem Cardoso se antecipou, estamos a exibir em votos de Paz este singelo cartaz.
Saivoado espreita, meio escondido na traseira da carrinha. Uma vista descoberta e uma mão a esquentar a pedra. Encara o tubo no meio e a postura arrogante de Cardoso. Os dois com as vistas embaciadas de vermelho. Caçador de intenções emocionado, sem aprendizado nenhum nos trejeitos do bom senso, aponta com a sua fisga esticada e dá-lhe bem no centro do focinho de Cardoso. Uma bala rudimentar, mas rápida, como a tecnologia do ódio. Cardoso sentiu, calado, a pancada na testa. Não fosse o barulho seco da pedra a bater no crânio arreliado, os outros ao redor nem dariam por ela.
Espectadores atentos a uma reacção de Cardoso. Coração inflamado de um lado, cérebro em queda do outro. Cardoso move-se num círculo torto e atira a AK para o chão, apoiando a outra mão no suor quente a pintar o seu rosto. Desentendido, investiga a palma da mão. Sem tempo de questionar o líquido vermelho, se desmonta agressivamente com todo o corpo na terra batida.
Irmã Maria sufoca com as duas mãos o velho crucifixo pendurado ao peito. Olha de lado para Ti Xavier, nem bem uma despedida, antes a prece costumeira. Revira a cabeça ao redor, encontra a incredulidade dos vizinhos de aldeia. Marca o olho na carcaça de Cardoso plantada no chão, e sem querer encontra a pré-anunciada fúria dos seus demais. Miras certeiras dos canos empunhados, dos gatilhos um silêncio, mas que à queima-roupa inventaram a música estridente das rajadas protestantes e luminosas, bem em cima de Maria e Xavier. Dois alvos a se espreguiçarem em câmara lenta com a coceira dos disparos. Três corpos caídos no universo agreste da fronteira. No meio, o tubo vermelho. Saivoado, assustado, dá de costas e foge; um desgraçado.
CORTE.
(EXT. FRONTEIRA- MONTE DE PEDRAS- QUINTAL- NOITE)
Quina arruma as cadeiras do óbito com os mais jovens da aldeia. Segue ao encontro da Mãe de Agostinho, jazida debaixo da mesa velada com a moldura do filho. Com leves palmadas, obriga o despertar da mamã embriagada. A velha, entre soluços, recupera-se do cimento. Ajoelhada, encena uma Avé Maria, que Quina interrompe.
QUINA Mamã, chega já, te encontrei um colchão lá dentro.
MÃE DE AGOSTINHO De dormir, minha filha? Deixa estar...
QUINA Mesmo se a mãe não ferrar, pelo menos amanhã a dor nos ossos...
Sem hesitar, carrega a mãe para dentro da casota, sem antes a velha de panos pedir uma cerveja ao rapaz que arruma as cadeiras.
MÃE DE AGOSTINHO Meu filho, uma garrafa, por favor...
E grita:
MÃE DE AGOSTINHO Tou a enterrar o meu filho... Agostinho uaéé!!
O rapaz entrega a cerveja com a cabeça baixa. Quina leva a Mãe para dentro.
CORTE.
(EXT. FRONTEIRA – QUINA NO QUINTAL – NOITE)
Quina sai da casota e ajuda os rapazes a arrumarem o quintal. Encontra a mesa de homenagem ao falecido e sopra calmamente as velas acesas, evitando o retrato, hipnotizada pela cera a derreter.
QUINA Não vi o Ti Xavier...
Um dos rapazes acrescenta:
RAPAZ O Saivoado também era para estar aqui.
De súbito, aproximam-se ruídos ao longe. Quina avista Saivoado a vir em ziguezague, ofegante, até cair com a cara nas sandálias da Quina.
SAIVOADO Quina, vão nos matar!
Quina recompõe-no com um par de galhetas nas bochechas.
QUINA Seu burro, tás a falar de quê?
SAIVOADO Quina, me mata já! Matámos o Cardoso!
Desmonta-se no chão a xinguilar. E em prantos grita:
SAIVOADO Eles reclamaram na Irmã Maria, aii! Ti Xavier também...! Ai, vou se matar...!! Quina?! Se vamo fazer como?
Quina troca a mão pesada no rapaz pelo afago escorregadio na testa.
QUINA Não tás a te engasgar nem nada com o gosto do maruvo?
SAIVOADO Quina, se te considero, pra me falares então assim? Chama o Pai!
Regressa derrotado ao chão.
SAIVOADO Mataram a Irmã Maria!! Xé!! Quina...! Eu tenho mbora as minhas pedrinhas...
Quina puxa-o para um canto fora do quintal.
QUINA Quem agiu primeiro? Uma Irmã Maria e um Ti Xavier que deixaram cair o Cardoso... conta ainda bem?
Saivoado meio constrangido.
SAIVOADO Até mesmo eu posso soltar uma pedra sem querer, Quina.
QUINA Tou a te ver seu fi da puta! Seu cão de merda, criaste uma guerra! Tás a te encarar bem com isso?
SAIVOADO Eu só sei que vou morrer… Fui lá, mas só tava a imaginar o Agostinho, né eles que começaram?
Quina perde o fôlego e afasta-se. Saivoado aproveita e se destaca pelas costas da moça, bem perto do ouvido.
SAIVOADO Confirma só, aquela tua AK velha, do Velho, é como?
Quina vira-se para Saivoado exigindo de volta o poder.
QUINA Tem bala. E você, ficaste com quantas pedras?
Saivoado, mesmo a sua máscara se transformou da tragédia para a comédia num instante.
(EXT. – MONTE DE PEDRAS – NOITE)
Quina e Saivoado desbravam o caminho para a casa grande da aldeia. Quina lidera a caminhada, mas Saivoado sabe bem importunar uma intenção. Corajoso, sempre com meia palavra no ouvido de Quina.
(INT. CASA DE VELHO JAMBA – NOITE)
Quina abre a porta de casa e entra com cuidado, sabe bem que o senhor do lar não aconchega nem com a noite.
QUINA Saivoado, entra mas fica aqui, me espera.
Prepara a respiração como uma atleta, e se atreve ao quarto do Velho Jamba, preparada para a resposta do vulto, na escuridão.
VELHO JAMBA Filha...
QUINA Pai!
VELHO JAMBA Se com esta hora se ousas aqui, deixam então te ouvir.
Quina, objectiva, invade o quarto escuro com as mãos, um curto passo até ao baú decorado no canto. Abre-o como quem sabe o que encontrará. Velho Jamba, meio importunado, assiste à ousadia tipo nada. Vê as matérias todas do velho e descobre a AK-47 enferrujada. Empunha-a no peito, mais o saco branco com os carregadores. Enfrenta o pai, espetado na beira da porta.
VELHO JAMBA Assim chegámos a este ponto?
QUINA Chegámos, pai.
VELHO JAMBA Assim mesmo tás emocionada. A conversa que orientei, falhou?
QUINA Falhou, pai. Nos consumiram... de novo.
VELHO JAMBA Nem a madre...?
Quina baixa a cabeça por instantes.
QUINA Pai... vai haver sangue.
Quina acode com ternura o ombro de Jamba. Deixa o quarto. Com pernas fracas, ele senta-se na cama, calado.
(EXT. MONTE DE PEDRAS – NOITE)
Quina empunha a AK ao peito. Ao lado, Saivoado faz barulho mesmo de propósito com o saco das pedras, espantando o sono da aldeia.
QUINA Família, não vamos se mentir. Ainda hoje lagrimámos o nosso Agostinho... Foi interrompido lá em baixo. Lhe deram!! E nós aqui a dormir?
Um petromax acende numa ou duas cubatas. Saivoado, com o pulmão inflamado de ilusão.
SAIVOADO Tou mesmo a vos avisar, tou vivo aqui, nós! Meu povo acorda!! Lá em baixo mataram o Ti Xavier... e a Irmã Maria!
Na última sentença de Saivoado, a aldeia deu então atenção ao miúdo desnutrido do Monte. E mais de dez petromax curiosos esquentaram a curiosidade das cubatas. Como ratos enclausurados numa toca incendiária, a população inquieta se acumulou à volta dos dois manifestantes. No meio da roda, e comovido, Saivoado desata a chorar da gratidão nem conquistada.
QUINA É guerra! Só precisamos dos mais jovens. Peguem pedras, a enxada… a mãe aqui dê só a faca da cozinha, mas preparem mais a coragem.
O povo atento, mas com o frio na espinha e ramela nas vistas, não se assalta com pesadelo a madrugada e sonho dos pobres. Quina empunha a AK-47 no ar. Ninguém se manifesta. A já viúva de Ti Xavier, abraçada à moldura do marido falecido.
VIÚVA DE TIO XAVIER Miúda Quina, de tudo que já vi nascer, todo o sangue que já vivi, desta vez deixa também enterrar a minha faca em memória do meu finado, o meu Zé de merda, filho da puta que lhe aguentava.
SAIVOADO Eu vi bem o tubo, é vermelho! Vamos morrer!
QUINA Vamos sim, vão nos matar!
E oferece um disparo com a AK apontada para o céu. O estalido da bala solta, assim mesmo, pulsa a veia contraditória da aldeia.
CORTE.
(EXT. CAMINHO PARA A COMUNA VERDE – NOITE)
Meia dezena de carrinhas angustiadas de luz dourada desbravam o caminho para a Comuna Verde. Quina comanda a frota pela frente. Corrige o volante, inquieta na estrada picada, sem medo da pressa. De repente, assusta um estalido bem no meio do vidro do carro. Os mil estilhaços se espalham, loucos, no interior da minifortaleza motorizada. Quina recompõe a postura, consumindo corajosamente as balas desafiadoras que se enfeitam agressivamente ao impactarem o caminho.
(EXT. FRONTEIRA ENTRE AS DUAS ALDEIAS – NOITE)
Quina a fingir superioridade trava o carro e desce vitoriosa, já cuspindo fogo da sua arma, a soldada à procura de um abrigo. Saivoado imita a sua Comandante, sem perceber os segredos de um bom atalho. Se esquiva como um verdadeiro animal perdido na fraca luz. Um pobre coitado a atirar miseráveis pedras contra uma cortina de balas.
A Comuna Verde, mais arrogante e ciumenta, prefere acabar com o esquema de vaidade da entrada triunfal do Monte, cuspindo uns “misseizinhos” nos velhos carros estacionados. Assim eliminaram todos os soldados do Monte de Pedras. Quina e Saivoado, desprezados os dois na trincheira entre tiros.
SAIVOADO Ficaste com quantas balas mais?
QUINA Num conta, a arma ainda tá pesada...fica atento puto.
SAIVOADO Você minha kota, xé?! Tás tipo num queres saber.
Quina não demonstra, mas envaidece-se. De repente, entram dois soldados armados da Comuna Verde no esconderijo dos dois, uma casa grande abandonada. Quina e Saivoado, um silêncio, desesperados no tenso “Ficó”, corrigem até os bafos respiratórios. Saivoado, vítima do quotidiano na poeira, reclama um espirro abafado pela mão de Quina.
QUINA Faz silêncio, seu meu filho da puta!
Mas não joga com a vontade, e Saivoado, logo liberto da palma mais poeirenta de Quina, ainda gritou um espirro mais alto, com o eco a toda a voz. Os dois soldados da Comuna Verde se corrigiram e aproximam, cada um por seu lado, rastejantes, dos indefesos Saivoado e Quina a praticarem um pobre esconderijo.
SOLDADO 1 Xé vem, lhes descobri.
O outro vem a correr.
SOLDADO 2 Não se acelera, também só quero bondar uma cabeça.
De repente, perfurando as janelas superiores da cozinha, uma metralhadora frenética faz os dois soldados dançarem descontrolados; uma bala na cabeça, um rasgo no coração do outro. Uma sombra robusta banha os bonecos de Quina e Saivoado encostados no canto, num fogão apagado. Mana Bela, a Viúva de Ti Xavier, se desmonta e volta a compor ao atravessar os vidrinhos da janela que ela própria destruiu.
VIÚVA DE TIO XAVIER O malogrado também deixou esse tubo carregado.
CORTE.
(EXT. MONTE DE PEDRAS – NOITE)
O Velho paira no meio da sua aldeia, absorto ao fogo gritante que invade o seu redor. Caminha em passos lentos em descida à fronteira. O lado esquerdo do dedo com a cola amarela do cigarro, que sem querer rejeita para o chão. Abre a boca de espanto, ou como para respirar mais fácil, e sem querer, revela a boca sem dentes.
CORTE.
(EXT. PLANO GERAL DAS DUAS ALDEIAS – NOITE)
As aldeias em febre e as bandeiras orgulhosas sem o vento; duas tochas em chamas.
(EXT. MONTE DE PEDRAS – NOITE)
Velho Hossi encara a gigantesca lareira. Mil clamores de lástima gritam entre a fumaça ardente que invade as suas brilhantes vistas amarelas.
(EXT. FRONTEIRA – NOITE)
A tubagem de plástico, bem no meio do clarão, é quase uma vela acesa disposta a derreter. Sem dar por isso, começa a gaguejar um jorro de lágrimas vermelhas. Bem sangue, o líquido que nem as guerras purifica.
(EXT. JAMBA E HOSSI. FRONTEIRA – NOITE)
A navalha que afia com a lua.
Jamba se aproxima lentamente do tubo. O olho esbugalhado pela fumaça se finta para o chão. Vai corrigindo os passos, só com a emoção do corpo. Na noite há um sol certeiro que lhe oferece uma cegueira básica. Bem do meio da bola amarela de luz, surge ao seu encontro, com mais dura confiança, uma sombra com o formato da sua carcaça. Jamba esfrega a pobreza das vistas. Hossi aproxima-se, ganhando contornos a cada passo duro e objectivo. Sem ceder ao teatro de devastação à sua volta, estaciona bem em frente ao tubo verde. Jamba enxerga na silhueta uma descoberta desconhecida. Já Hossi retribui a olhada, como quem encontra um velho amigo.
Parados em frente ao tubo (ora amarelo, para os do Monte de Pedras, ora verde, para os da Comuna Verde, que cada aldeira enxerga o tubo com a cor da sua bandeira), os dois recebem um banho agressivo da lua, que revela o tal do tubo na sua verdade de cor vermelha. Hossi arrisca mais um passo em frente, que Jamba nem indagou.
HOSSI Jamba, tás a ver o que nos causamos...?
Jamba recompõe os olhos.
HOSSI Meu Irmão, se eu sei que nem tás a chorar... E como vês, eu tão pouco.
Jamba tosse calado.
HOSSI Se distraímos com o remorso... eu sei. Não te avisei como devia? Talvez... Assim como estava a te olhar quando pisavas a tua própria terra... o teu bruto orgulho...
Jamba endireita-se e cola o olhar ao irmão à sua frente. Os dois afastam com as mãos as águas vermelhas que pintam, lamacentas, as suas estátuas.
JAMBA Já não tenho palavras para ordenar muita prosa... mas, assim, quem tem razão dessa vez? Isso aqui que tá verter do chão, assim então é quê?
HOSSI Mesmo já sabes que a Irmã Maria morreu. Que a pobre levou então com ela a história da cruz... Olha os nossos reinos a gritarem, vê bem o que jorra desse tubo.
Jamba volta a baixar a cabeça.
JAMBA É sangue.
HOSSI Tá bem, mas qual terra que não se inicia com sangue? Depois do vermelho secar... vais me acreditar, um óleo bruto e preto, porra! Vai surgir, tás comigo ou não? Tá bem, eu tou a ver uma cor, vocês que fiquem também com a vossa ideia.
JAMBA Estamos a se matar, tás mesmo a ver bem?
HOSSI Sempre a brincares de desentendimento?
Como um lunático, com a força da lua mesmo, Hossi dá uma volta descontrolada, cruza a fronteira, paira nas costas de Jamba, brinca ao redor e volta ao seu posto.
HOSSI Achas que alguém aqui tá se a coçar com essa chuva? Mesmo esses aqui (aponta para a câmara) que tão a nos ver só, é quê?
Hossi aproxima-se de Jamba, quase a cruzar de novo a fronteira para o monte.
HOSSI Nós dois, só mesmo para curar essa praga... vamos ainda se oferecer um abraço... de Irmãos?!
Jamba hesita, mas dá um passo também que contraria a fronteira vizinha. E abraça o irmão. Os dois empilhados um ao outro sob o calor da chuva vermelha. De repente, com o calor do momento, Hossi desvenda a prata pontiaguda que se servia dos seus bolsos. Indiferente à já madrugada gritante, empunha com o ódio nas vistas uma, ou duas, três, quatro, cinco e seis. Como um doido, faz espirrar as costelas do seu irmão Jamba, que em câmara lenta desliza até aos joelhos de Hossi.
Nem um guincho. A máscara de Jamba mergulhada na virilha de Hossi. Hossi, sem esforço, se sacude com o joelho direito a carcaça de Jamba. Acompanha como se debate no chão. Como um piedoso, oferece mais um punhal na garganta do velho. Hossi nem espera pelo descanso do irmão abatido. Se ostenta para a câmara; mesmo um louco a se banhar na lua vermelha.
CORTE.
(EXT. GUERRA ENTRE AS ALDEIAS – NOITE)
No decorrer da pipocada, Quina e Saivoado inventam um caminho astuto. Evitam balas na aldeia nocturna. Quina se espanta com o molho de disparos em cima de Saivoado. Urgente, acode o menino enfeitado Protege-o com o corpo e o encaminha para um beco abrigado. Vasculha a anatomia toda de Saivoado e descobre um farrapo cravado de balas. Sem se interrogar, começa a montar as peças do jovem, um puzzle ordinário.
(EXT. FRONTEIRA – NOITE)
O tubo maldito se ergue como uma torneira nem assim tão tímida, pinta tudo ao seu redor. Um vermelho florescente de madrugada. De repente, surgem dois faróis incandescentes no meio da estrada, berram ao som de uma metralhadora potente. Quina e Saivoado esquivam-se das balas espalhadas pelo atirador louco, na parte de trás da carrinha Toyota aberta.
A frenética metralhadora canta por cima do camião com o soldado portador do dedo no gatilho tentando inventar posições arbitrárias de pé, como um equilibrista.
Quina, com a sua AK-47 orgulhosa, dispara à sorte e Saivoado arrisca os ricochetes da sua fisga. Dois soldados corajosos no meio do fogo, bem vaidosos na fotografia. Quina é entupida com uma bala no ouvido, que ela nem reclama, aguenta a mão no problema da orelha; uma torneira aberta a oferecer sangue.
(EXT. NO MEIO DA GUERRA. FRONTEIRA – NOITE)
Quina a esvair-se em sangue, vê Saivoado a rastejar no chão, ensanguentado, e corre ao seu encontro. Apanha-o com dificuldade e se posiciona sobre os seus joelhos. Acalma-o, passando a mão na sua cabeça. Saivoado acomoda bem a cabeça nas pernas de Quina, reconhece as dores e frio a ocupar-se do seu corpo.
SAIVOADO Obrigado, Quina, assim já servi...
QUINA Já serviste, sim.
SAIVOADO Assim já posso descansar, né?
QUINA Podes sim, nosso tropa, descansa em paz.
SAIVOADO Agradecido... Quina...!?
Silêncio.
SAIVOADO Descansa ‘mbora também.
FIM