O projecto artístico organizado pelo Ondjango Feminista tem este ano o título “Esenje Li Tchosi” e foca nas raízes culturais e espirituais do feminino angolano. Em Novembro, mulheres artistas apresentam as suas reflexões sobre a sabedoria ancestral “transmitida muitas vezes em surdina” pelas angolanas ao longo das gerações, e que é “essencial na formação de resistências e identidades”.
Pelo quarto ano consecutivo, o colectivo Ondjango Feminista provoca-nos com a sua Exposição Colectiva. Nesta edição, um conjunto de angolanas mergulha, através da arte, “nas raízes culturais, espirituais e simbólicas do feminino”, expressa o manifesto do projecto.
Em conversa com a Ngapa, Xano Maria, integrante da coordenação do Ondjango Feminista, aprofunda: “Queremos fazer uma celebração crítica e poética da resistência cultural das mulheres angolanas — das avós às mais jovens — como guardiãs de saberes, criadoras de símbolos e forças de transformação. As obras que vamos expor vão da pintura à performance e serão uma reflexão sobre os arquivos vivos que habitam os provérbios, os panos, as comidas, as línguas nacionais ou as práticas orais. Também abordaremos de que forma figuras como a Kianda, Rainha Nzinga, Kimpa Vita e outras ancestrais continuam a habitar o presente, mais além da representação histórica e mítica”.
A selecção das participantes na 4ª edição da Expo Colectiva terminou em Julho e segue-se agora um período de formação, em colaboração com as associações Rompe e Otratierra. Não é uma capacitação técnico-artística, sublinha Xano Maria, mas “sobre como, através da arte, se podem expressar ideias e mensagens de forma mais impactante”. “A visão deste projecto é que a arte deve despertar emoções e questionamentos e interagir com a vida e com o activismo social, o chamado ‘artivismo’. Queremos misturar a arte com a vida, de forma a provocar uma reacção do público”.
O próprio cartaz do evento indica essa intenção. “Há quem diga que a figura do Pensador teve uma origem feminina, que era na realidade uma ‘Pensadora’. Com base nesta ideia, fizemos uma escultura reinterpretada, onde esse elemento cultural icónico do país surge como uma mulher. É essa imagem que ilustra o projecto deste ano, e que representa absolutamente o que move esta edição, a mulher como origem da filosofia da vida”, explica.
A pedra sabe tudo
O título dessa edição, “Esenje Li Tchosi”, significa “a pedra sabe tudo” na língua umbundu. “Este nome é todo um mundo”, indica Xano Maria. “A pedra a que nos referimos, é aquela onde se pisa o milho ou a mandioca para fazer fuba. É um lugar tipicamente frequentado só por mulheres, onde elas trabalham, socializam, encontram soluções, resolvem conflitos, onde passam de boca em boca dizeres, ensinamentos e provérbios. É um lugar de conhecimento. Por que não trazer esse conhecimento cá para fora?”
O projecto Exposição Colectiva materializou-se pela primeira vez em 2021. Desde então, a iniciativa reune várias mulheres que não têm necessariamente uma formação formal em artes, mas sim uma visão clara do mundo. Uma resposta do Ondjango Feminista à “necessidade de garantir visibilidade às mulheres que, apesar de se quererem expressar artisticamente, não têm as mesmas oportunidades e acessos que os homens na arte e na cultura”, afirma Xano Maria.
Este propósito firme vai de encontro às próprias bases fundacionais do colectivo feminista, que desde 2016 tem realizado um trabalho intenso de activismo e na área da educação “em prol da realização dos direitos humanos de todas as mulheres e meninas em Angola, advogando por uma agenda feminista transformadora a partir de uma perspectiva de justiça social, solidariedade e liberdade”, como se lê no site. Com a 4ª Expo Colectiva “Esenje Li Tchosi”, o Ondjango Feminista bate de novo tecla.