Sabino sabia demais. Lia como quem toma sorvete em janeiro: rápido, para não derreter. Sabino só tomou sorvete duas vezes na vida — no aniversário de 10 anos e no dia em que o pai morreu. Nenhuma das duas vezes era janeiro.
Ele e a mãe, viúva, viviam numa vila nem perto nem longe da cidade, onde saber demais pelos livros, e não pela vida, não era bem-visto nem mal visto. A mãe incentivava: foi ela quem ensinou ele a ler aos dois anos, mas também se preocupava. Se não vigiasse, o menino trocava fácil a comida e o sono por livros, discos, qualquer coisa que lhe trouxesse uma pergunta nova, uma nova palavra.
— Mãe, qual a tua Lei da Física favorita?
— Nunca fui boa em Física, meu filho. Sempre preferi as Letras.
— Pois a minha é que, se um corpo está em movimento, ele permanece em movimento até que outra força aja sobre ele.
Nas férias, a mãe o obrigava a sair. Trinta minutos de sol por dia, era o combinado. Foi assim que Sabino se viciou em ler as nuvens, os bichos, os fungos, as folhas. Lia o mundo, e o mundo dizia pouco. A terra era seca, a chuva rareava. Pouco nascia, menos ainda brotava.