O conhecimento é um bem universal que não se limita a fronteiras geográficas nem a identidades nacionais. A sua história é feita de encontros: da matemática árabe que influenciou a Europa medieval e nos deu os números que usamos; da astronomia maia que dialogou com o pensamento ocidental; das mil e uma invenções chinesas que revolucionaram o mundo; da filosofia grega que encontrou ressonância em África e na Ásia.
A ciência moderna nasceu precisamente dessa circulação e da capacidade de diferentes povos partilharem saberes, aperfeiçoarem métodos e questionarem certezas. Ignorar esta dimensão colectiva e interdependente da produção científica é um erro fatal, porque significa fechar os olhos ao que sempre fez avançar a humanidade: a troca, a crítica e a partilha.
É nesse espaço comum que se decide quem participa na construção do futuro e quem se limita a consumi-lo como bem acabado. Olhando para o nosso contexto, é aqui que nos deparamos com um dilema crucial: ou Angola participa activamente nas grandes correntes contemporâneas de pensamento e conhecimento, inscrevendo-se nesse espaço universal de produção de saberes, ou tornar-se-á marginal. Não é uma questão menor. Esta irrelevância científica traduz-se em dependência tecnológica, perda de soberania intelectual e incapacidade de responder aos desafios globais que, inevitavelmente, também nos afectam.
É importante sublinhar que o atraso que hoje vivemos não se mede apenas pelo número reduzido de artigos, patentes ou centros de investigação. Revela-se, sobretudo, na ausência de uma política científica que compreenda as ciências exactas, sociais e humanas como empreendimento colectivo e como pilar de desenvolvimento cultural. Este descaso é evidente tanto no baixo nível de investimento interno (como detalhado na reportagem “Falta dinheiro e vontade política para dinamizar a investigação científica em Angola”), quanto nos indicadores internacionais. Em 2023, o Índice Global de Inovação colocou o país na última posição entre 132 avaliados, um contraste gritante com o orgulho que ostentamos da nossa riqueza natural e cultural, e que é desmentido ano após ano no descaso em relação ao conhecimento.
Estamos, portanto, diante de uma urgência histórica. O exemplo da Inteligência Artificial, abordado por Luís Verdeja no artigo “A inteligência artificial e o futuro de Angola: capacidades locais ou dependência?”, é eloquente. Já não se trata de um horizonte distante, mas de uma realidade concreta que redefine economias, linguagens, comportamentos e até a política. Se Angola não se inserir na criação, adaptação e crítica dessas ferramentas, estará condenada a ser apenas consumidora de sistemas produzidos noutros contextos, muitas vezes desenhados para reforçar lógicas que não são as nossas e que podem acentuar desigualdades e dependências.
“Angola e África têm de encarar a Inteligência Artificial desde uma perspectiva generativa e não de neocolonialismo e tecnologia”, insiste nesta edição Francesca Ferrando. Esta filósofa italiana é uma das principais vozes globais do pós-humanismo e fala-nos numa longa entrevista sobre como países como o nosso, habitualmente pouco abertos a estas discussões, têm, sim, que levantar a voz. Sob o risco de se auto-excluírem diante de mutações filosóficas, tecnológicas e evolutivas que estão a definir o futuro de todos nós. Queremos ser mais uma vez meros e irrelevantes espectadores?
Neste contexto, o desafio não é apenas o de acompanhar tendências tecnológicas ou de pensamento, mas também de articular o diálogo entre a ciência global e os saberes locais. A geometria Sona dos Cokwe é um exemplo perfeito desta relação. O reconhecido trabalho do académico Paulus Gerdes sobre esta expressão sofisticada de pensamento matemático, demonstrou como os sona são capazes de dialogar com paradigmas universais. A “Montra” desta edição, “Gerdes e o despertar do pensamento matemático”, do etno-matemático moçambicano Marcos Cherinda, aprofunda esta questão. A mesma lição foi reiteradamente defendida em múltiplos fóruns pelo filósofo ganês Kwasi Wiredu: não basta exaltar tradições africanas pela sua origem, mas resgatá-las e reinterpretá-las pelo seu potencial de ampliar a compreensão humana.
Universalidade não é, pois, homogeneidade. É pluralidade, crítica e partilha. É nesse espaço colectivo que Angola precisa de inscrever a sua voz com visão estratégica e compromisso cultural. Não podemos continuar a repetir slogans sobre “financiamento à ciência” sem perceber que a ciência é, antes de tudo, um projecto político e democrático. A ciência de que precisamos não se fará apenas em laboratórios ou relatórios ministeriais. Ela terá de nascer também do inconformismo, da crítica, da criatividade dos estudantes, dos investigadores e dos cidadãos.
Este editorial é, portanto, um apelo: que Angola abandone de vez a ideia de que “ciência é luxo” e que o universo reside no nosso umbigo. “As nossas coisas” pura e simplesmente não existem. São, na verdade, “coisas de todos”. Esta edição da Ngapa comprova-o. Aqui há vozes e estéticas de Angola, Guiné-Bissau, Senegal, Moçambique, Zimbabwe, África do Sul, Itália, Portugal, Brasil e México, e todas elas demonstram, na sua essência universal, como perspectivas de geografias tão diferentes estabelecem diálogos que nos dizem tanto a nós, cá dentro. Participar desse diálogo é, pois, uma exigência da dignidade colectiva e de transformação do que somos em algo maior: pensamento, inovação e humanidade.