A decolonialidade surgiu como um conceito revolucionário, mas será que realmente responde aos desafios do colonialismo, ou limita os debates de sociedade como a nossa? Cara-a-Cara, dois académicos de peso: o jornalista e académico sul-africano Kavish Chetty, para quem a teoria da decolonialidade empobrece a diversidade de pensamentos africanos e desconsidera o diálogo crítico com o Ocidente; E a académica brasileira Claudete Daflon, que defende que, na sua pluralidade de perspectivas, decolonizar pressupõe a experiência do diverso no objectivo comum de nos desconectarmos da colonialidade do saber, do ser e do poder que ainda molda as nossas sociedades e sistemas de pensamento.
1.
Rumo à Descolonização, Contra a Decolonialidade | Toward Decolonisation, Against Decoloniality
Kavish Chetty
Over the last half-century, the African continent has produced an astonishingly diverse archive of critical thought on the problematic of how to decolonise the mind; that is, how to address the legacies of the colonial encounter as they manifest in our systems of thought, our cultures, our philosophy. Yet, in recent times, this great diversity has come to be eclipsed by a specific and narrow approach to the challenge, known as “decoloniality” theory. Decoloniality is a unique discourse, with its own diagnostic instruments for probing the world and its own set of proposed solutions and remedies. We should resist its attempt to slurp up all of the rich, complex, and pre-existing traditions of intellectual decolonisation, and falsely claim them as its own. Decoloniality and decolonisation are not equivalent.
Nos últimos 50 anos, o continente africano produziu um arquivo impressionante e diverso de pensamento crítico sobre a temática de como descolonizar a mente; ou seja, de que forma abordar os legados do colonialismo que ainda se fazem presentes nos nossos modos de pensar, culturas e filosofias. Contudo, nos tempos mais recentes, esta grande diversidade tem vindo a ser ofuscada por uma abordagem unilateral e limitada, conhecida como teoria da “decolonialidade”. A decolonialidade é um discurso singular, com instrumentos próprios para analisar o mundo e um conjunto muito específico de soluções. Devemos resistir à sua tentativa de absorver todas as tradições ricas, complexas e preexistentes de descolonização intelectual, reivindicando-as falsamente como suas, pois decolonialidade e descolonização não são equivalentes.
2.
Para ficar com o problema | To Stay with the Problem - Decoloniality Beyond the Label
Claudete Daflon
At the university where I teach, located in the city of Niterói, in the metropolitan region of Rio de Janeiro, after a classroom discussion about the existence of a “decolonial” trend in the Brazilian intellectual and cultural field over the last decade, a student asked me whether I should abandon the term and seek a less trivialised terminology. I replied that it was precisely for that reason I needed to continue using it; it was necessary to engage in the dispute over the concept and the practices associated with it. In a context where the forums for the production of thought are permeated by market[ing] logic, converting ideas into labels is an efficient strategy to paralyse the debate and neutralise dissonances. To confront this situation, however, can hardly be reduced to simply rejecting the conceptual apparatus in dispute, an attitude that, in the end, replicates the very behaviour it aims to criticise.
Na universidade em que leciono, situada na cidade de Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, após uma discussão em sala de aula sobre a existência de uma onda “decolonial” no ambiente intelectual e cultural brasileiro da última década, uma estudante me perguntou se eu não deveria abandonar o termo e buscar uma terminologia menos banalizada. Respondi que era exatamente por causa disso que eu precisava continuar a usá-lo: era preciso entrar na disputa pelo conceito e pela prática a ele vinculada. Num contexto em que os fóruns de produção de pensamento se encontram atravessados pela lógica de mercado, a conversão de ideias em rótulos é uma estratégia eficiente para paralisar o debate e neutralizar dissonâncias. O enfrentamento dessa situação, contudo, dificilmente pode ser reduzido à simples recusa do aparato conceitual em disputa, atitude que, no final das contas, mantém a mesma conduta que se busca criticar.
Tradução: Déborah Marnu