Por: Conceição Lima
Nasceu no único lugar onde poderia nascer:
o lugar onde o aconchegava o ventre de sua mãe.
A morada do ventre era uma roça
E a roça era uma morada cruel
Algures no corpo da ilha encerrada.
Nasceu no único lugar onde poderia nascer:
O ventre da roça que fechava
O corpo e o materno soro
Que o aconchegava, o alimentava.
Doce seria o seu olhar ao nascer
(Doce iria ser sempre o seu olhar)
E algo melancólico
Como no retrato
Ou talvez ainda não melancólico
Pois mãe e filho
Filho e mãe
Encerrados embora numa roça cruel
Incrustada numa fechada ilha
Estavam juntos
Estavam como devem estar
Uma mãe e seu filho menino
Seu filho pequenino
Em qualquer parte do mundo.
Porém, sua mãe era subalterna de seu pai
Serva era a condição de sua mãe
Serva da roça
Serva do seu pai: célula da engrenagem
Que fechava o ventre da roça
No arfante corpo da ilha.
E o menino pequenino foi tirado à sua mãe
A serva mãe foi tirada ao seu filho pequenino
Levado para longe o menino pequenino
Para o Norte o menino pequenino
Longe-longe de sua mãe
Longe do colo na roça encerrada
No corpo da ilha sufocada.
Seu pai, senhor de sua mãe
Levou-o para longe da roça
Para muito longe da ilha-mãe
Apartando filho e mãe.
O pai do menino pequenino
Não o queria encerrado na roça cruel
Não o queria numa sufocada ilha
No colo da serva mãe.
Para ele sonhou vastos mundos, largos horizontes
Insondáveis livros, oceanos azuis, outras línguas
Sedutores mapas, museus de portas abertas
Para ele concebeu a largueza do planeta.
(Não o planeta de Césaire, Damas, Langston, certamente
Não a busca das negras raízes, certamente
Não o regresso à Ilha de Nome Santo, certamente
Não o perpétuo Coração em África, certamente.)
Porém a largueza de um outro mundo
Longe da ilha sufocada
Longe da mãe encerrada
Na condição de serva sem palavra.
Porque o pai queria consigo
O seu filho pequenino
Tão seu filho como filho de sua mãe
E a mãe era sua serva
Sem direito ao doce olhar do seu filho
Sem direito ao claro choro do seu filho
Sem direito à inocência do seu filho pequenino.
O pai patrão da serva mãe
Não terá pensado em poder ou violência
Quando separou o filho pequenino da sua mãe
Quando separou a mãe do seu filho pequenino.
Somente os separou.
Jamais imaginou, jamais adivinhou
Que mãe e ilha, ilha e mãe
Mãe-ilha, ilha-mãe acordariam um dia
E para sempre
No coração do menino pequenino.
Não podia adivinhar
Que estava a colocar o coração do menino pequenino
No dilacerado coração do mundo.