Matriz

Quando o Poeta foi Privado da sua Mãe e da sua Ilha

Conceição Lima
foto/ilustração:
Andrea Cabrera López

Por: Conceição Lima

Nasceu no único lugar onde poderia nascer:

o lugar onde o aconchegava o ventre de sua mãe.

A morada do ventre era uma roça

E a roça era uma morada cruel

Algures no corpo da ilha encerrada.

Nasceu no único lugar onde poderia nascer:

O ventre da roça que fechava

O corpo e o materno soro

Que o aconchegava, o alimentava.

Doce seria o seu olhar ao nascer

(Doce iria ser sempre o seu olhar)

E algo melancólico

Como no retrato

Ou talvez ainda não melancólico

Pois mãe e filho

Filho e mãe

Encerrados embora numa roça cruel

Incrustada numa fechada ilha

Estavam juntos

Estavam como devem estar

Uma mãe e seu filho menino

Seu filho pequenino

Em qualquer parte do mundo.

Porém, sua mãe era subalterna de seu pai

Serva era a condição de sua mãe

Serva da roça

Serva do seu pai: célula da engrenagem

Que fechava o ventre da roça

No arfante corpo da ilha.

E o menino pequenino foi tirado à sua mãe

A serva mãe foi tirada ao seu filho pequenino

Levado para longe o menino pequenino

Para o Norte o menino pequenino

Longe-longe de sua mãe

Longe do colo na roça encerrada

No corpo da ilha sufocada.

Seu pai, senhor de sua mãe

Levou-o para longe da roça

Para muito longe da ilha-mãe

Apartando filho e mãe.

O pai do menino pequenino

Não o queria encerrado na roça cruel

Não o queria numa sufocada ilha

No colo da serva mãe.

Para ele sonhou vastos mundos, largos horizontes

Insondáveis livros, oceanos azuis, outras línguas

Sedutores mapas, museus de portas abertas

Para ele concebeu a largueza do planeta.

(Não o planeta de Césaire, Damas, Langston, certamente

Não a busca das negras raízes, certamente

Não o regresso à Ilha de Nome Santo, certamente

Não o perpétuo Coração em África, certamente.)

Porém a largueza de um outro mundo

Longe da ilha sufocada

Longe da mãe encerrada

Na condição de serva sem palavra.

Porque o pai queria consigo

O seu filho pequenino

Tão seu filho como filho de sua mãe

E a mãe era sua serva

Sem direito ao doce olhar do seu filho

Sem direito ao claro choro do seu filho

Sem direito à inocência do seu filho pequenino.

O pai patrão da serva mãe

Não terá pensado em poder ou violência

Quando separou o filho pequenino da sua mãe

Quando separou a mãe do seu filho pequenino.

Somente os separou.

Jamais imaginou, jamais adivinhou

Que mãe e ilha, ilha e mãe

Mãe-ilha, ilha-mãe acordariam um dia

E para sempre

No coração do menino pequenino.

Não podia adivinhar

Que estava a colocar o coração do menino pequenino

No dilacerado coração do mundo.

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