Luzééé

Fantasmas

Hélio Buite
foto/ilustração:

A máquina como símbolo do avanço e conhecimento é um corpo inerte. Numa era em que a linguagem binária assume funções, rosto humano e parece ditar o futuro, aço, roldanas e sistemas automatizados apodrecem quando abandonados pelo seu criador.

Essa dependência dita o sucesso ou a decadência; o avanço e o colapso; as esperanças e o adiamento constante. Coloca o conhecimento e o seu produto numa posição subalterna a algo ainda mais frágil e incerto que o metal – nós. Em nós residem as decisões e o apertar do botão, as políticas, politiquices, interesses que determinam se todo esse conhecimento (científico, cultural e de todas as ordens) é aplicado de forma positiva e evolutiva, se vai directo para o caixote do lixo ou se é usado contra a mão que embala o berço.

Os robôs e máquinas-pensantes dos filmes e de laboratórios de engenharia industrial, tal como qualquer tipo de avanço, são assim o nosso reflexo, e sem ele não brilham nem têm vida própria, por muitos cabos e peças pensadas ao milímetro para os activar.

Nestas fotos, o abandono de fábricas, neste caso em Luanda, onde tecnologia e estruturas industriais sucumbiram à má gestão (humana), à ausência de investimento estatal (humano), à crise económica prolongada (detonada por humanos) e às falhas (humanas) dos mecanismos de fiscalização (humanos).

Outrora promessas de crescimento para um país em processo de desenvolvimento, estas máquinas entraram em implosão ferruginosa, tornando-se símbolos do colapso das aspirações modernizadoras. Grande parte está fechada a sete-chaves ou completamente abandonada.

Ao mesmo tempo que revelam fracasso, esses lugares ganham novos significados, porque ocupar e mutar está também na nossa natureza que tudo consome. Transformaram-se em parques de estacionamento improvisados ou são terreiros do trabalho informal que, na sua necessidade humana básica, se apropriou da infra-estrutura ociosa.

Dizem que não há bom ou mau conhecimento, o único classificável é o que fazemos dele. Enquanto esta discussão eterna prossegue num jogo de bem e mal, de ego e altruísmo, o tempo e os elementos (esses sim, poderosos) ditam o destino deste conhecimento – produto do cérebro humano, tão ágil na criação como perdido em manipulações falaciosas que anulam, muitas vezes, o poder da sua genialidade.

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