A filósofa Francesca Ferrando é uma das grandes vozes globais do pós-humanismo. Para a académica italiana, o pós-humanismo não é apenas uma teoria, mas uma ética de existência de questionamento constante, orientada para a consciencialização do presente (no corpo, na cultura, na história e no ambiente) e para a criação de um futuro relacional e não dominador. A académica e poetisa italiana Noemi Alfieri conversou com Francesca Ferrando sobre o que significa ser humano nos dias de hoje e de como o pós-humano deve abraçar a tecnologia com consciência crítica. Uma conversa também sobre a contribuição de África neste futuro, onde a sua visão e valores podem propor novos modelos de tecnologia e de Inteligência Artificial. O que têm países como Angola a dizer num contexto pós-humano? Como evitar a auto-exclusão e ficar, mais uma vez, como meros espectadores diante de mutações filosóficas, tecnológicas e evolutivas que definem o(s) futuro(s) de todos nós? Neste diálogo aberto “de tu para tu”, Ferrando traça-nos um cenário tanto desafiante como transformador.
Noemi Alfieri - No livro “A Arte de ser Pós-Humano”, publicado em 2023, colocas questões fundamentais sobre o que significa existir hoje, e no que nos estamos a tornar como humanidade. Sugeres o conceito de “interexistência” e defines a consciência pós-humana como um composto de múltiplas relações biológicas, sociais, culturais, tecnológicas e cósmicas, onde o corpo humano é uma comunidade ecológica de organismos em simbiose. As formulações das ideias do teu livro são únicas, ou mudam consoante o contexto individual e a geografia de cada um?
Francesca Ferrando - A reflexão é ampla e a resposta é sempre contextual, relacional. A minha investigação, assim como o fundamento do pós-humanismo, é um pouco uma procura de quem sou eu, de quem somos nós. Ao responder, apercebo-me de que nunca estou sozinha. Não sou uma entidade separada ou individual, mas relacional. Sou sempre um devir, um verbo, um processo, um movimento. Esta ideia liga-se a muitas tradições, inclusivamente as africanas e da própria Angola, por exemplo a tradição ubuntu, onde se cultiva a noção de que eu não existo de forma isolada. O pós-humanismo remete-nos às origens da humanidade para entender o ser humano não apenas como uma relação entre seres humanos, mas também com uma relação com a existência, o planeta, a tecnologia e a natureza, observada como parte da cultura. É um entendimento aberto, que nos reflecte nesta lógica onde absolutamente tudo é mutável – a começar pelo próprio ADN que, como nos ensina a epigenética, não é estático, transforma-se constantemente com base no contexto em que estamos, nos alimentos que comemos, nos movimentos que fazemos na nossa vida, etc., etc.
Na tua obra defendes que a categoria “humano” precisa de ser limpa de preconceitos históricos e culturais, e evidencia que o que é considerado “humano” nas filosofias ocidentais corresponde a uma minoria privilegiada: o homem branco, europeu, educado, sem limitações físicas ou de outro tipo, heterossexual. Nesse sentido, lanças uma pergunta inicial: “Quem somos nós no século XXI?”. Tens a resposta?
Mais uma vez, é uma pergunta com várias respostas. Muitas delas vão além do espaço-tempo, podem ser encontradas na sabedoria e no conhecimento de todas as épocas, de todos os contextos históricos e das nações de todos os continentes. Há 14 anos, quando comecei a dar aulas de filosofia antiga, pediram-me para estruturar o curso “Das origens até 200 anos depois de Cristo”. Isto atirou-me para uma crise existencial: “Origens? Quais origens?”; “Filosofia? Que filosofia? A grega, a africana, chinesa, hindu?” Foi então que me apercebi que o que se considera a “origem da civilização” é algo muito recente, cerca de cinco mil anos a partir da origem da escrita. Mas sabemos que muitas culturas não se baseavam na escrita, mas em outros arquivos de conhecimento, tal como a história oral, dança, música, pintura, etc. Esta multiplicidade é precisamente o pilar sobre o qual assenta o pós-humanismo. Porque se eu estudar apenas as raízes históricas greco-romanas, estou só a fazer 5% das reflexões sobre o ser humano. É somente uma das cores do arco-íris.
O pós-humanismo coloca questões e deixa o espaço aberto a respostas diferentes. É um jogo constante de reflexão entre quem eu sou e o que me rodeia. De quem somos nós enquanto seres humanos e parte de um planeta que já não é o mesmo de há 20 mil anos, e que vive agora o Antropoceno. Um planeta que foi transformado pela própria actividade humana, que nos permite apreciar a beleza, a criatividade e a diversidade da existência, compreendendo essa existência a partir da unidade que rege tudo e todos. Foi assim que ao longo destes anos de investigação e docência, me dei conta de que quando realmente esprememos a essência de qualquer tradição, religião ou saber, chegamos sempre ao mesmo lugar: o micro é o macro, o todo é o indivíduo – essa é a essência.