A janela de madeira leva os gritos que me saem secos da garganta, não dançam com o vento as cortinas, encosto-me à parede que me abraça por trás. Os suspiros acompanham cada amém, cada Pai Nosso, cada susto e cada medo. Doem os joelhos sangrados, rebentam as bolhas que se formaram de tão ajoelhados no chão liso e seco.
Mamã Paula grita mais do que eu, perde a voz e engasga-se, eleva os seus olhos ao tecto à espera das respostas celestiais, domada pelo medo de perder o primogénito. O medo. Via-se também a perder das mãos o alambamento. “Quantos Pai Nossos ainda gritarei?” Pergunto-me já de voz rouca, grito em mim mesma: “Mauro, espera por mim, espera. Não te afastes sem que vivamos os dias pensados. Penso, olho à minha volta e cada dia na cama azul entre as paredes brancas são contados. Cada lençol que te cobre guarda um pouco de ti, te envolve em cada sossego e te abraça. As cores te fazem já ver o paraíso, Mauro.”
Levanto-me de pernas bambas, a mamã me segurou, a tua mãe, encolhida em si, estendida no pano que lhe oferecemos. Ela guarda no rosto as lágrimas, não acabaram quando te viu nascer, nem nos teus primeiros choros silenciosos pereceram. Ter primeiro um homem é graça. Perdê-lo é feitiçaria. Típico de nós. Entre paredes desgastadas, encolhidas no quarto fechado, Má Tengó cobre-se de branco como o hospital, acende as velas brancas de paz e diz-nos: “Temos de rezar muito; ele me visitou, gritando nos meus ouvidos o receio de lhe engarrafarem a vida. O nódulo inflama, aquece como um peso agrafado por dentro e contrai-se ao segurar o abdómen, a virilha aperta e inflama como os nossos rostos de tanto chorar. Isso são ventos maus que lhe foram lançados.”
A mãe tem nele esperança. Ter resultados tão certeiros das tuas dores incomoda-me, não os partilhei com ninguém e não havendo quem tenha respostas para tudo, ele tinha. Estendo os braços aos ombros baixos da mãe, de olhos humedecidos nos abraçamos. Imaginamos a vida sem ti, grito por quem te lançou os ventos, levaram as tuas pegadas, a roupa íntima, te levaram antes que percebêssemos, afinal naquela casa estavas sozinho, afinal pensavas mil e uma coisas, afinal éramos nós que nos afastávamos e mesmo quando perto estivéssemos, mais longe de ti estávamos. Cada respiração tua é um milagre, a cama do hospital já não te quer, o diagnóstico é incerto, os resultados negativos. Típico de nós.