Esta curta recensão emerge de uma reanálise das obras do intelectual camaronês Jean-Marc ELA – Investigação científica e crise de racionalidade; As culturas africanas no âmbito da racionalidade científica; A investigação africana face ao desafio da excelência científica –, particularmente do texto com que encerra esta trilogia, intitulado Para uma cultura das ciências nas sociedades africanas.
A proposta de ELA mantém-se atual. O autor propõe-nos uma reflexão sobre o lugar da ciência em África e sobre os caminhos possíveis para a sua reinvenção, em diálogo com o ecossistema mundial de ciência e apoiando-se nele, é certo, mas através de uma permanente vigilância epistemológica das perspetivas eurocêntricas sobre a ciência e a produção do conhecimento. Este é, essencialmente, o desafio que ELA coloca os investigadores científicos africanos. Fá-lo apoiando-se em algumas ideais centrais.
A primeira dessas ideias é a importância de aprender a pensar África a partir de África e do seu património cultural endógeno. Isto implica um esforço pessoal e coletivo dos investigadores africanos para libertarem-se da perspetiva ocidental sobre o continente, que historicamente construiu imagens distorcidas, redutoras e mitificadas dos povos africanos e das suas formas de conhecimento. Como bem demonstrou o insigne intelectual congolês V.Y. Mudimbe, África foi frequentemente representada como um espaço sem história, sem ciência e sem pensamento próprio, o que contribuiu para legitimar formas de dominação política, económica e simbólica.