Lisboa, 18 de Outubro de 2012
Chamo-me Camila. Soube na semana passada que me recusaram a bolsa de pós-doutoramento e não faço ideia do que vou fazer a seguir. Quem me contou foi o Pedro, que me ligou a dizer que tinha recebido a bolsa. Aconteceu no dia dos anos do João e discutimos depois disso, porque o João ficou ainda mais triste do que eu ao saber que eu não tinha conseguido. Disse-me que achava que era injusto e que, depois dessa injustiça, tinha vergonha de ser bolseiro da mesma maldita instituição.
Ele fazia anos, trinta e quatro. Então lá nos esforçámos por fazer um bolo e apagarmos as velas, lá nos animámos um pouco e os gatos pareceram ficar contentes de não passarmos o serão todo no quarto.
Estamos no Outono e não abri as persianas. Hoje deixei-me estar na cama o dia inteiro e, ao fim do dia, o João insistiu que fôssemos às compras e tomássemos o pequeno-almoço ao jantar, coisa que normalmente me anima.
Tenho trinta e dois anos. Sou uma rapariga no escuro. Sinto que a notícia da semana passada apagou a luz que eu imaginava ter diante de mim desde que me doutorei há dois anos. Vivemos na Avenida de Berna e têm havido muitas manifestações.