Considerações finais
Este esboço reflexivo pretendeu ser um contributo para a compreensão da relevância da dimensão política da violência em Angola. Para tal, procurou-se descortinar os mecanismos que podem reger a relação entre a acção política e a violência no período compreendido entre 1975 e 1991.
A reflexão teve como referente o contexto da guerra civil, em particular, a relação de conflitualidade entre o MPLA/Estado e a UNITA/Jamba. Todavia, o enfoque centrou-se na violência exercida no âmbito das suas dinâmicas internas, exemplificadas por dois acontecimentos: «o golpe do 27 de Maio de 1977», no espaço MPLA/Estado, e a chamada «queima das bruxas», ocorrida em 7 de Setembro de 1983, no território UNITA/Jamba.
Em certa medida, estes dois acontecimentos ilustram, ainda que de forma distinta, um tempo de constituição de um universo relacional de exercício de violência, monopolizado pelas duas organizações político-militares. Todavia, em cada território tutelado, cada uma destas forças bélicas detinha o monopólio de exercício da violência.
No decurso da nossa abordagem adquiriu pertinência o recurso aos contributos teóricos de Achille Mbembe, em particular à formulação da subjugação da vida ao poder da morte, nomeadamente quando se trata da gestão soberana da morte como instrumento de poder. Essa formulação funcionou, de certa forma, como sistema de navegação para a nossa abordagem.
Todavia, a sua operacionalidade no âmbito do objecto reflexivo revela-se insuficiente quando se procura problematizar a relação entre a acção política e a violência. Tal constrangimento heurístico deve-se, em grande parte, ao facto de não se encontrar uma política concreta de gestão da vida e da morte sustentada por um princípio político, nem tampouco uma regularidade relativamente à materialização da capacidade soberana de decidir sobre a morte, isto é, na sujeição das populações à precariedade e à eliminação física.
Assim, a nossa cautela relativamente à operacionalidade do conceito de necropolítica no que concerne ao nosso olhar sobre dinâmica do campo político angolano, parece ter sido ajustada. Mas tal ajuste decorre, também, da complexidade e da historicidade desse campo político e, por conseguinte, da sua funcionalidade. Funcionalidade que passa, em muito, pela necessidade de se reproduzir como tal, pese embora haver indícios de sujeição da vida ao poder da morte.
Mas tais indícios não implicam obrigatoriamente, o predomínio de um exercício político de sujeição da vida ao poder da morte. Pois importa recordar que um dos princípios subjacentes à lógica do universo político-organizacional e militar, é a necessidade de mobilizar o maior número de «fiéis», independentemente de se sentir no direito de accionar mecanismos de exclusão do «politicamente perigoso».
É nesta medida que, no nosso entender, e no respeitante ao processo de configuração do campo político angolano no período compreendido entre 1975 e 1991, o poder da morte está sujeito a um sistema assente no poder da vida. A prontidão combativa assim o exige.
ÍNDICE
1. Considerações sobre a Violência
2. Da violência colonial à guerra civil
Considerações Finais